Quem sou eu?

Por: Valéria Dantas Machado

Vivenciamos nas últimas décadas revoluções que marcaram a evolução da humanidade. A modernidade criou um mundo sem fronteiras. O velho dito popular: “quem tem boca vai a Roma”, sofreu um up-grade e hoje podemos dizer: “quem tem recurso vai à Lua”.

O limite do tempo e as barreiras geográficas se dissiparam. O lixo, antes descartado, hoje é reaproveitável. Até o computador sofre de virose. E o que dizer da ortografia?! Sim, a ortografia também foi reformada e, para comprovar isso, façamos um pequeno teste, tente ler as palavras a seguir: “vc, q, pq, msm, ui, quts, +,qdo, bj, abç, kbeç, tdb, ops, otm, lgl, tbm, flx. Td bm cm vc?”. Caso tenha conseguido ler ao menos cinquenta por cento, você está “ligado” ao mundo, se não conseguiu, bem, é melhor perguntar a alguém com experiência, ou seja, alguém com 08 ou 09 anos!

Acontece que muitos de nós fomos atropelados por tanta informação e pela falta de tempo para se adaptar às mudanças. Nosso cotidiano e intimidade foram praticamente invadidos.

Bem-vindo então ao pós-modernismo! E um pós que nos remete muito mais a ruptura da historicidade, de tradições, da fronteira entre a cultura elitizada e a cultura de massa. O ícone da modernidade é marcado muito mais pela reprodução de imagens do que pela produção. Como citado por Perry Anderson.

Na sociedade pós-moderna os efeitos estão marcados nos sujeitos protagonistas reais dessa história, e a sociedade como um movimento em massa impulsiona todas as dimensões: profissional, pessoal e até emocional. Exclui-se a dimensão da privacidade, “quem é você para seu líder?” e mais ainda “quem é você para si mesmo?”. A perda da identidade e de referências nos inibe a sermos nós mesmos e a preservar os nossos valores.

Tudo se tornou globalizado, perto demais e sem limites, a ânsia de ser aceito pelo grupo, de fazer parte de panelinhas na escola ou mesmo no mundo corporativo, nos coloca num jogo de vale-tudo e tudo deve porque pode. Como citado por Raymundo de Lima (Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação – USP). “O superego pós-moderno ‘tudo vale’ e ‘tudo deve porque pode’. Todos se sentem na obrigação de se divertir, de ‘curtir a vida adoidada’ e de ‘trabalhar muito para ter dinheiro ou prestígio social’, não importando os limites de si próprio e dos outros”.

O progresso trouxe sim muita modernidade e comodidade, mas o preço a pagar pela pós-modernidade pode ser muito alto, caso não tenhamos como marcar nossa existência vivendo o que de fato somos.

É um paradoxo que com tanta modernidade e velocidade, nos queixemos de não ter tempo para nós mesmos. Será que em sua agenda está programado, tempo livre para não fazer nada ou simplesmente jogar conversa fora, fazer uma caminhada, rezar. E por que isso não ocorre? Queremos liderar os outros, mas será que lideramos a nós mesmo?

Os consultórios psicológicos estão cada vez com um número maior de pessoas clamando por ajuda, por se sentirem sozinhas, deprimidas, confusas, ou até mesmo por não terem com quem conversar.

No mundo corporativo isso é acentuado pela pressão de metas cada vez mais audaciosas, pelo volume de informações por todos os meios, por cobranças de resultados. Nessa dinâmica diária nos esquecemos de nós mesmos e dos papéis que desempenhamos. Esquecemos-nos de ser pai extraordinário, irmão, filho, amigo. E o quanto nós estamos contribuindo para a formação de uma humanidade melhor, seja em casa, na escola ou no serviço.

Como dica eu proponho que faça o teste do espelho! Responda as seguintes perguntas:

  • Você gostaria de ser liderado por si mesmo?
  • Qual a minha missão como líder? Como pai, filho, marido, amigo?
  • Quais são meus valores?
  • Eu vivo os meus valores?
  • O quanto eu sou útil para a sociedade?
  • Qual minha contribuição para um mundo melhor?
  • Qual o legado que deixo?

Guiamos-nos por GPS no trânsito, mas nem sempre conseguimos nos guiar internamente, muitos profissionais chegam a relatar que perderam a sua identidade, que tiveram atitudes que jamais fariam se seus valores fossem vivenciados.

Ao responder essas questões você cria sintonia consigo mesmo, a exemplaridade é mais forte do que o discurso. Uma dica citada por Jim Collins na HSM ocorrida no ano passado: pare pelo menos uma vez por semana e se desligue do mundo, e para isso aperte o “off”: de seu celular, computador, telefone, televisão.

Tire algumas horas para estar com você mesmo, – espero que seja uma companhia agradável -; reflita sobre as questões que permitirão a você vivenciar os seus valores; ao responder as questões aqui citadas anote em uma folha coloque em um lugar que possa olhar todos os dias, assim poderá viver de acordo com o que acredita.

“Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida.” Platão

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